“Oh, DOMBI! Tu és toda a felicidade!… Há quem diga que és terrível e avassaladora, mas sobretudo os sábios abraçam-te no seus seios… Oh, DOMBI! Não há ninguém mais sensual e encantadora do que tu” [1]

Uma mulher com uma feminilidade florescente e um imenso poder erótico é conhecida no Tantra como uma mulher Dombi. Esta mulher possui uma sensualidade cativante, um erotismo refinado e uma total liberdade interior.

Devido ao seu potencial erótico totalmente desperto, ela é vista como uma iniciadora no caminho tântrico, a iniciadora do Eros Puro e do Amor Divino.

As mulheres Dombi têm sido muito apreciadas “devido à sua feminilidade plenamente manifestada, à ausência de inibições e preconceitos e à sua capacidade de abandono total”[2] à Suprema Consciência Divina dentro de um homem.

A rapariga da lenda

A história de uma Dombi tem a sua origem numa lenda de um rei indiano que foi levado para o caminho espiritual com a ajuda do poder misterioso de Dombi, a sua consorte tântrica. A lenda diz o seguinte.

Uma vez, o rei de Maghada assistiu a um espectáculo de artistas de rua e apaixonou-se instantaneamente por uma das dançarinas. Diz a lenda que ela era tão bela que bastava olhar para ela para se apaixonar. Tinha todas as qualidades de uma padmini, uma mulher lótus, “a mais rara e desejável de todas as mulheres”[3]. Apesar da proibição estrita de casar com mulheres proscritas, o rei tomou a rapariga como sua consorte. No entanto, os ministros não consentiram esse casamento e o rei, juntamente com a sua mulher, teve de abandonar o país, retirando-se para as florestas.

A lenda afirma que o rei tinha sido iniciado nas práticas tântricas secretas. Durante muitos anos, o rei e a sua amada consorte tinham praticado fusões amorosas com continência erótica que, por fim, os conduziram à realização espiritual.

Durante a sua ausência, o reino transformou-se em anarquia e desordem. Os ministros, que inicialmente o tinham forçado a partir, foram à procura do rei. Quando finalmente encontraram o eremitério, viram o rei a meditar debaixo da árvore e a sua mulher a caminhar sobre a água nas folhas de lótus. Espantados, pediram ao rei que regressasse. Segundo a lenda, o rei e a sua mulher regressaram “montados numa tigresa grávida e usando uma cobra venenosa como chicote”[4]. No entanto, o rei não tencionava reinar.

Depois de ter alcançado a realização espiritual, o rei não via valor na vida material comum como antes. Além disso, tinha perdido o seu estatuto de casta ao casar-se com uma mulher proscrita e não achava correcto retomar a sua posição de rei. Por isso, disse ao seu povo:

“Como a morte acaba com todas as distinções, queimem-nos. No nosso renascimento teremos sido absolvidos”[5].

Foi feita uma grande pira de cremação para eles e durante sete dias o fogo ardeu. Quando as chamas finalmente se apagaram, as pessoas puderam ver o rei transformado na poderosa divindade Hevajra, unindo-se amorosamente à sua esposa.

A lenda diz que, através desta manifestação milagrosa, o rei trouxe muitas pessoas do seu reino para o caminho espiritual. A partir daí, passou a ser conhecido como Dombipa, “O Senhor de Dombi”.

A intocável

Dombi é descrita como uma mulher de uma casta inferior ou fora de todas as castas. Para além da aparente posição inferior, o seu baixo estatuto social tem um significado muito profundo. Na realidade, indica uma certa predisposição para aceder a verdades profundas que estão para além das normas e dos princípios correntes.

Tal como as outras pessoas de origem estranha, a mulher Dombi é considerada como aquela que “não deve ser tocada”. O facto de ser intocável tem também um significado mais profundo, pois ela é a encarnação do enigmático princípio feminino, impalpável aos sentidos, incompreensível para a mente humana.

Dombi significa “lavadeira”, pois é a única “livre de qualquer qualificação e atributo, social, religioso, ético, etc.”[6]. A sua posição de lavadeira tem um grande significado. Simboliza a excepcional pureza interior com que purifica e santifica tudo o que toca. Indica também a sua atitude simples e humilde perante a vida. É ela que serve os outros com abnegação e humildade.

Na obra “Yoga: Imortalidade e Liberdade”, o famoso orientalista Mircea Eliade confirma que é frequente encontrar-se a história de uma jovem proscrita, “cheia de sabedoria e possuidora de poderes mágicos”. Refere também que, no tantra, essas mulheres de baixo nível são veneradas e até exaltadas, porque os tântricos desenvolvem a capacidade de ver o nobre e o sublime escondido para além do profano.

Mulher que mostra o caminho para o Absoluto

Esta mulher é naturalmente dotada para o caminho tântrico devido à sua extraordinária capacidade de experimentar vários estados profundos de orgasmo. Quando combinados com a aspiração espiritual, esses estados intensos de orgasmo levam-na à expansão espontânea da consciência.

Os estados de orgasmo avassaladores a que a mulher tem acesso impulsionam-na para estados místicos de êxtase divino, SAMADHI. Na realidade, tais estados são experiências indescritíveis de comunhão com o Absoluto ou Deus.

Se o homem com quem essa mulher desperta faz amor for empático, ela é capaz de induzir nele estados espirituais extraordinários. Desta forma, ela ajuda o homem a alcançar a transcendência. É por isso que no tantra a mulher é considerada como aquela que mostra o caminho para o Absoluto ou Deus. 

“Esta energia gigantesca que a Dombi possui, seja de forma nativa ou pelo reforço da sua sensualidade, provoca o despertar da Kundalini, que ajuda tanto ela como o homem a atingir rapidamente o estado de androginia e os conduz à transcendência”[7].

 

Qualidades de uma mulher Dombi

Há mulheres que nascem com as qualidades extraordinárias de uma Dombi. No entanto, é absolutamente possível tornar-se uma encarnação de Dombi, desenvolvendo conscientemente as qualidades específicas de uma mulher Dombi. Tais como:

  • Simplicidade. Dombi é uma mulher simples. A sua simplicidade reside na sua atitude aberta e positiva perante a vida, bem como perante os desafios ou dificuldades que enfrenta. Inclui também um estado geral de contentamento e gratidão.
  • A Beleza é um dos seus principais atributos. A beleza exterior de uma mulher Dombi reflecte a beleza interior da sua alma. Esta beleza combina pureza, humildade, aspiração e harmonia interior.
  • A Humildade é uma das suas principais características. Ela não tem pretensões à vida e recebe com gratidão tudo o que Deus lhe oferece. A humildade é a expressão de um profundo reconhecimento da supremacia e da omnipotência de Deus, bem como de um profundo respeito pela autoridade divina.
  • Sensualidade que ela manifesta livremente e sem qualquer inibição e que lhe permite experimentar a vida de forma plena e viva.
  • Uma liberdade interior que se exprime por uma total falta de vergonha. Porque uma mulher Dombi não tem preconceitos, dogmas ou tabus, ela é totalmente livre de quaisquer constrangimentos.
  • Um erotismo refinado e avassalador que lhe permite viver estados de êxtase intensos.
  • Aspiração em direcção ao Divino, que a ajuda a elevar a energia erótica para os níveis mais altos do seu ser. Ao mesmo tempo, é a sua intensa aspiração que pode ajudar um homem, com quem ela se une amorosamente, a sublimar as energias durante o acto amoroso e assim aperfeiçoar a sua continência erótica amorosa.
  • Uma vitalidade exuberante que lhe dá estabilidade emocional e ajuda a manter os estados espirituais.
  • Flexibilidade que permite que as energias cósmicas fluam livremente através do seu corpo.
  • Grande capacidade de amar. Quando uma mulher se abre à energia sublime do amor, torna-se um canal de amor divino que pode oferecer com grande alegria aos outros.

Como conclusão, podemos dizer que Dombi representa uma mulher totalmente desperta, tanto erótica como espiritualmente. A sua energia erótica avassaladora exprime-se livremente, mas ao mesmo tempo é totalmente direccionada para a Consciência Suprema.

Quando uma mulher desperta no seu ser as qualidades específicas de uma mulher Dombi, ela descobre e assume o seu verdadeiro papel na vida da sociedade humana. Esse é o papel da Iniciadora nos Mistérios Divinos da Criação. Assim, a mulher torna-se uma misteriosa força divina que impulsiona os seres humanos para a transformação espiritual.

 

[1] The Introduction into the Secret Tantrism, Mircea Eliade

[2] Masters of the Mahamudra Path, vol. 1, The Legends of the Eighty-four Mahasiddhas

[3] The Legends of the Eighty-four Mahasiddhas, Mondup Sherab

[4] According to Tradition: Hagiographical Writing in India, Winand M. Callewaert, Rupert Snell

[5] Dombi Heruka, Palpung Thubten Choling Buddhist Monastery https://palpungny.org/dombi-heruka/

[6] Yoga: Immortality and Freedom, Mircea Eliade

[7] Spirituality and the Sacred Languages, Mircea Eliade